domingo, 17 de maio de 2009

Sobre internet e livros

O caderninho teen do Globo, o Megazine, de vez em quando me causa espécie com algumas matérias. A matéria de capa de ontem falava da relação dos jovens com a internet e a porcentagem de atividades reais – como fazer exercícios, ir ao cinema ou ler - que está sendo preterida por eles em comparação às atividades online. Um trecho me chamou a atenção. Entre cinco jovens – quatro eram, aparentemente mais ajuizados - entrevistados pelo caderno, um deles, o adolescente Luís Emanoel de Oliveira, de 17 anos, aluno do 3o. ano do colégio Pedro II (que aqui no Rio é considerado um bom colégio, apesar de público), declarou o seguinte:

“É muito mais fácil clicar numa tela de computador do que folhear um livro (…) A internet me oferece muito mais vantagens que os livros. Leio aqueles que a escola me passa (sic). A literatura está ultrapassada, não oferece atrativos suficientes para os jovens. A internet é enriquecedora, pois ela possibilita que você entre em contato com pessoas de línguas diferentes, culturas diferentes. (…) Quando estou interessado em algum assunto, o lugar ideal para pesquisar é na internet, que tem uma quantidade insuperável de informações. A gente acaba lendo o tempo todo quando está conectado.”

Olha, isso é um retalho apavorante de pensamento, principalmente porque foi colocado entre outros depoimentos mais consistentes, sem o devido cuidado de transformá-lo em denúncia de uma idéia completamente rota. Na verdade, a única ressalva que a revistinha faz é, ao final do depoimento do jovem, no que diz respeito às informações colhidas na rede, o seguinte comentário: (…) diz ele, sem levar em conta, aparentemente, que boa parte dos sites trazem informações erradas ou imprecisas“. É pouco. Nesse pequeno depoimento, encontram-se pelo menos sete erros sérios de avaliação que a revistinha poderia ter explorado, prestando assim um serviço bem melhor aos leitores. Vamos a eles:

1. Conteúdo x forma. Me impressiona que até hoje, mesmo gente velha de internet ainda não tenha compreendido – e o pior, que fique tentando provar o contrário o tempo todo – que a rede é meio e não fim. Sabe, para algumas pessoas, ler em computadores pode até ser mais fácil e prático que ler livros em papel ou jornais. Concordo. Mas isso é uma questão de forma, não de conteúdo. Se você lê algo relevante, não importa onde o faça. E cá para nós, eu ainda não vi nada, nesses treze anos de rede que tenho, que fosse algo absolutamente original da rede em termos de conteúdo. Há melhorias, mas não novidades. Enciclopédias já existiam e continuam existindo. Jornais só se tornaram mais rápidos, ninguém reinventou o lead, por exemplo. Sites pessoais continuam sendo currículos, blogs são diários publicados (o que eu escrevo hoje, com diferença de vinte anos de maturidade, são as minhas velhas agendas, com textos, poemas, desenhos e etc…), chats são conversas, twitters são mesas de bar e assim vai. A internet só possibilitou a publicação do que já se produzia privadamente.

2. A literatura não tem atrativos para jovens? Certo, onde esse rapaz esteve nos últimos anos que não ouviu falar em Harry Potter, só para citar um exemplo? Ah, sim, deve ser um sujeito muito culto que não liga para essas manifestações de pequena burguesia, ainda mais vindas do estrangeiro. Olha, não me levem a mal, mas essa miguxada não vê atrativos em literatura jovem porque simplesmente não conhece nada de literatura. Tanto eu neste post, quanto a Lulu neste outro, só para citar dois exemplos, já provamos nos blogs que o que não falta nesse mundo é boa literatura infanto-juvenil. Ah! Espera aí, Harry Potter não é literatura? Ah, sim, o moleque deve ser um desses preciosistas também. Foi mal. Por fim, para quem acha que literatura não interessa ao jovem, devia pensar também nos jovens que não somente lêem como escrevem e bem. Como a Olivia.

3. A literatura está ultrapassada? Em primeiro lugar, essa idéia é o seguimento óbvio do erro anterior. Quem não gosta de ler quando criança e adolescente, certamente não vai gostar de ler quando adulto. As conseqüências disso são as mesmas velhas que já conhecemos: pouca capacidade de escrita, péssima capacidade de interpretação de textos, senso crítico pobre, baixa concentração, pouca imaginação. Enfim, mais um para ser parte da Grande Escumalha, da Grande Boiada. Contudo, além disso, é uma observação completamente equivocada. Nunca se escreveu tanto, nunca se publicou tanto. E mesmo para os que defendem que literatura de gente viva não presta, eu creio que há, nesse mar de lançamentos, nem que seja pela insistência, coisas realmente boas e dignas. E afinal, o quê, se a literatura está ultrapassada, a substituiu? o MSN?

4. Contato com outras línguas e culturas? Rá! piada, né? Dizer que conhecer meia dúzia de miguxos americanos e argentinos enquanto joga Counter Strike é travar contato com línguas e culturas diferentes é uma brincadeira de mau gosto. Contato com línguas e culturas diferentes se dá de duas formas: viajando ou lendo. Não conheço nenhuma outra.

5. Lugar ideal para pesquisas? Para quem tem a capacidade de discernir o quê, dentro desse mar de porcaria que existe na rede, é relevante ou não, a internet realmente foi uma maravilhosa conquista. Para um médico que, há quinze anos, para obter um paper de um artigo de um pesquisador estrangeiro, precisava passar por verdadeiras vias-crucis de bibliotecas e correios, conseguir isso na rede em segundos, é fabuloso. Para quem sabe que não há melhor relato da revolução nacionalista de 1830 na França que o livro Les Misérables, de Victor Hugo, conseguir uma versão rara em francês na rede é a glória. Agora, para quem faz pesquisas no Google e copia-e-cola trabalhos de colégio de outros moleques tão ignorantes quanto, é uma tragédia.

6. Quantidade insuperável de informações? Desde quando isso é vantagem? já está provado que um homem que tem dois relógios nunca sabe que horas são. Qualquer dia desses, se replicarem demais que Cabral chegou ao Brasil em Porto Seguro em pleno carnaval, no dia de um show de Ivete Sangalo, vai ter muito idiota desses acreditando. Aliás, quem não leu 1984, de George Orwell (e não existe boa literatura palatável para jovens, sei…) devia ler, rápido, mas sem dar tanta importância ao aspecto mais conhecido do livro, o Big Brother. A reescrita da história e a criação da novilíngua, essas são as sacadas mais geniais do autor. E o miguxês seria o quê, afinal de contas? Já tem legenda de filme. Só falta a primeira publicação de livro.

7. Lendo o tempo todo? Numa boa, quem acha que lê o tempo todo na internet, definitivamente não entende o que seja ler. Ler implica em concentração, avaliação, crítica, abstração, mesmo quando é para ler uma receita de bolo, uma bula de remédio ou uma história em quadrinhos. Agora me digam, quem consegue ler oito janelas abertas ao mesmo tempo com MSN pipocando, música no ouvido e outras coisas mais? E mais: o que se lê também é importante. Oito horas num chat, ainda que seja “lendo”, são oito horas perdidas em termos de leitura. Que há a leitura instrumental, ok. Mas ler, ler de verdade, não é nem perto disso.

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